(14/17) – MARGEM DE LUCRO É O QUE SOBRA DE UMA VIAGEM? NÃO CAIA NESSA ARMADILHA!

Margem de lucro

Margem de lucro é um tabu entre os transportadores rodoviários de carga, muitos se perguntam qual deveria ser o percentual ideal, e se de fato estão atingindo o número.

A verdade é que não é tão simples chegar na margem de lucro correta, se você não fizer os cálculos para todos os demais custos envolvidos no processo.

Eu converso com muitos caminhoneiros autônomos e também donos de pequenas transportadoras, e vários deles, muitas vezes no início da profissão, acabam me dizendo:

Ganhei mais de 20, 30 e até 40% de lucro na última viagem que fiz!

A pergunta que faço a eles, e que quero que você reflita também é, se descontarmos tudo aquilo que você realmente teve de despesas, será que sobrariam tais percentuais de lucro?

O grande problema, na maioria dos casos, é que estes profissionais não conhecem no detalhe os seus custos, até porque muitos destes custos não “tiram o dinheiro do seu bolso” imediatamente.

Mas então, o que fazer?

Continue lendo este artigo, e te garanto que você entenderá o que é de fato a sua margem de lucro, e o que é custo, mesmo que seja apenas uma provisão de gastos futuros.

Você vai aprender isso através dos seguintes assuntos que serão abordados:

  • Quais são os custos que todo transportador rodoviário tem, ao fazer um frete
  • Onde estão e como funcionam aqueles custos escondidos, que você não enxerga ao fazer o cálculo de frete
  • Qual a diferença entre lucro bruto e lucro líquido
  • Como fazer para chegar num percentual exato sobre o valor do frete?
  • Para cada tipo de veículo, ou o tipo de carga, deve-se mudar a margem de lucro?

Este artigo faz parte da série sobre cálculo de fretes, que mostra num total de 17 textos, tudo o que você sempre quis saber sobre como calcular adequadamente o frete.

Gostou do que vem por aí? Então compartilhe esse post com seus amigos, principalmente aqueles que pensam estar lucrando, mas que no fim podem estar perdendo dinheiro.

CUSTOS QUE TODO TRANSPORTADOR RODOVIÁRIO TEM AO FAZER UM FRETE

Custos do transportador rodoviário de cargas

Os custos que todo transportador rodoviário tem, seja ele autônomo ou empresa, são os variáveis, porque eles pertencem ao veículo diretamente.

Eu escrevi um artigo inteiro sobre custos variáveis, mas para resumir, vou citar quais são exatamente estes custos:

  • Combustível (diesel, gasolina, álcool);
  • Arla 32;
  • Pneus;
  • Manutenção do veículo;
  • Lubrificantes;
  • Lavagens e graxas.

Veja que basta rodar o veículo e todos estes custos aparecerão, não tem como fugir.

Agora, existem também os chamados custos fixos, aqueles que você paga mensalmente, mesmo que o veículo fique parado no pátio.

Dos custos fixos, veja os que são mais visíveis a todo transportador:

  • IPVA, seguro obrigatório e licenciamento do veículo;
  • Seguro do veículo (se houver).

No caso de uma empresa, ainda existe o salário do motorista mais os encargos sociais.

CUSTOS MUITAS VEZES NÃO CONSIDERADOS AO FAZER O CÁLCULO DE FRETE

Custos de transporte escondidos

Muitos transportadores esquecem que alguns custos existem e não tem como deixar de pagá-los.

O problema é que, ao não considerá-los, acaba dando uma falsa ideia de lucro, quando na verdade é possível até estar no prejuízo.

Alguns destes custos, mesmo não considerados muitas vezes, são bem mais visíveis, tais como:

  • Diárias de viagem do motorista (mesmo autônomo);
  • Seguro da carga (para empresas) (acidente + roubo);
  • Gerenciamento de risco (para empresas);
  • Generalidades (exceções que geram custos);
  • Impostos (para empresas);
  • Administração do negócio: as empresas de transporte têm diversos custos fixos para manter o negócio, como aluguel, energia, água, telefone, funcionários, etc.. que precisam ser rateados entre os veículos da frota;

Porém dois custos, na maioria das vezes, ficam escondidos e acabam não entrando nos cálculos.

Um deles você até pode dizer que é possível não incluir, por uma questão de instabilidade da economia, e tudo mais.

Mas o outro é impossível não considerar. Vamos a eles!

Remuneração de capital

Imagine que uma empresa, ou mesmo um autônomo, tenha R$ 300 mil guardados no banco, rendendo juros todos os meses, e que o dinheiro já esteja por lá há algum tempo.

Agora imagine que resolveram usar este dinheiro para comprar um caminhão, colocá-lo para rodar e trazer lucro.

Você não acha que seria justo, além do lucro que o caminhão pode trazer, continuar tendo o rendimento que existia no banco?

É uma questão do custo de oportunidade, ou seja, mover o dinheiro de um investimento para outro, porém sem perder o rendimento.

O mesmo vale para veículos comprados com financiamento, ou seja, ao menos os juros da prestação mensal a ser paga para o banco precisam ser considerados como um custo fixo que estará na tabela de fretes.

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Depreciação do veículo

Este é o custo escondido mais importante na minha visão, porque representa uma visão de longo prazo do negócio.

Quando um transportador não considera a depreciação do veículo no cálculo de fretes, ele simplesmente está deixando de fazer uma reserva para a troca da sua ferramenta de trabalho no futuro.

O grande problema de se fazer isso é que, ao não considerar a depreciação, tem-se a falsa impressão de que o lucro foi maior, e logo este dinheiro pode ser gasto com outras coisas.

Sem reserva financeira em caixa, muitos transportadores sofrem para renovar a frota, e caem num ciclo em que o custo mensal só aumenta por causa de manutenções.

DIFERENÇA ENTRE LUCRO LÍQUIDO E LUCRO BRUTO

Diferença entre lucro líquido e lucro bruto

Agora que você já sabe sobre todos os custos que um transportador rodoviário de cargas tem, é preciso ir mais longe para entender o que sobra, a margem de lucro.

Um conceito muito importante é o de separar o lucro bruto do lucro líquido.

Lucro líquido é aquilo que realmente sobra, depois de descontar absolutamente tudo o que houver de despesas.

O ideal é que você possa fazer isso para cada veículo de sua frota (caso tenha mais de um veículo) porque isto te mostrará qual veículo é mais rentável e qual inspira cuidados.

Porém, antes de chegar no lucro líquido, é interessante fazer um cálculo mais simples para chegar no lucro bruto de cada veículo.

Para isto, basta que você pegue de um mês:

  • ( + ) Faturamento do veículo (valor faturado ou recebido com fretes)

E subtraia:

  • ( – )  Despesas variáveis
    • Combustível (diesel, gasolina, álcool)
    • Arla 32
    • Pneus
    • Manutenção do veículo
    • Lubrificantes
    • Lavagens e graxas

Com isso você terá como resultado o lucro bruto deste veículo. Ao dividir este resultado pelo faturamento você terá o % de lucro bruto deste veículo.

Isto é especialmente importante para transportadoras com frota, porque é possível medir o desempenho do motorista ou dos valores de fretes recebidos.

COMO CHEGAR NUM PERCENTUAL EXATO DE LUCRO LÍQUIDO

Lucro líquido: percentual exato

Muita gente me diz que até consegue enxergar todos os custos.

Porém gostariam de embutir um percentual exato de margem de lucro.

Essa margem de lucro desejada pode ser conseguida se fizermos um cálculo por dentro do percentual.

Mas como fazer isso?

Vou colocar um exemplo prático de um frete, que poderá resumir tudo o que vimos acima e também explicar a margem de lucro exata.

Exemplo:

  • Frete de Curitiba para o Rio de Janeiro;
  • Distância: 843 km (não será considerada a volta pois o caminhão virá com outro frete);
  • Tempo de viagem: 2 dias
  • Peso da carga: 5 toneladas
  • Veículo: Ford Cargo 1119 ano 2015
  • Margem de lucro desejada: 15%

Estes são todos os custos que precisam ser considerados nesta viagem:

  • Frete peso: R$ 1.366,68 (clique aqui e veja como cheguei neste valor)
  • Ad valorem: R$ 330,00
  • Gerenciamento de Risco: R$ 165,00
  • Generalidades: R$ 100,00

O objetivo é ter lucro sobre a operação, e não sobre taxas adicionais como Ad Valorem, GRIS e Generalidades, por isso o cálculo da margem de lucro será feito apenas sobre o frete peso:

  • R$ 1.366,68 / (100%-15%) = R$ 1.607,86
    • Os 15% são da margem de lucro desejada
    • Os R$ 1.607,86 correspondem ao frete peso + a margem de lucro
  • Se subtrairmos dos R$ 1.607,86 o valor do frete peso temos a margem de lucro
    • R$ 1.607,86 – R$ 1.366,68 = R$ 241,18
  • R$ 241,18 correspondem exatamente aos 15% de margem de lucro líquido desejados.

Por fim, somando:

  • Margem de lucro: R$ 241,18
  • Frete peso: R$ 1.366,68
  • Ad Valorem: R$ 330,00
  • GRIS: R$ 165,00
  • Generalidades: R$ 100,00

Chegamos ao valor deste frete, no total de R$ 2.202,86.

Ou seja, uma vez que você consiga calcular exatamente todos os seus custos, além despesas com a segurança da carga e outras generalidades, é possível determinar exatamente quanto você quer colocar no bolso.

Como é um cálculo, podem ter ficado dúvidas, se este é o seu caso por favor coloque-as nos comentários abaixo, e terei o maior prazer em te ajudar.

VEÍCULOS/CARGAS DIFERENTES, MARGEM DE LUCRO DIFERENTE

Margem de lucro diferentes por tipo de veículo

E se mudar o tipo do veículo, ou o tipo da carga, ou mesmo o tipo de serviço prestado, será que devemos também considerar margens de lucro diferentes?

Na minha visão, sim!

Só você conhece o seu negócio tão bem, e só você saberá considerar os riscos, e até mesmo a viabilidade de cada frete.

O meu objetivo aqui é que você conheça todos os seus custos para que a margem de lucro realmente seja líquida.

Agora qual margem utilizar dependerá de você, e também do mercado.

Em tempos de crise econômica, como vivemos agora, é provável que você tenha que pensar friamente em cada frete, para saber em qual deles poderá ter uma margem melhor.

Por outro lado, haverá fretes que não te trarão uma margem de lucro tão boa, porém ajudarão a pagar as suas despesas fixas.

CONCLUSÃO

Eu espero sinceramente que você tenha entendido que a margem de lucro não é aquilo que sobra no final de uma viagem de frete.

Existem os mais variados custos que devem ser considerados sempre, para que a sua margem de lucro desejada realmente possa ir para o seu bolso.

Não tenha receio de fazer cálculos, achando que o mercado nunca irá pagar, porque pensando assim você acaba aceitando uma condição de perdedor, isso mesmo, de perdedor!

Um profissional de sucesso, ou um empresário de sucesso, conhece seus números, e corre atrás para justificá-los.

Pense nisso 😉

Forte abraço
Ed Trevisan

Planilha de Cálculo de Frete Rodoviário

Série: Cálculo de fretes

  • [01/17] – Como fazer o cálculo de fretes sem perder dinheiro.
  • [02/17] – Por que você pode perder dinheiro se não calcular a cubagem?
  • [03/17] – 7 motivos para você considerar a depreciação no seu cálculo de fretes.
  • [04/17] – Por que o custo de oportunidade não pode ficar de fora da sua planilha?
  • [05/17] – Como calcular seu custo fixo por dia?
  • [06/17] – Quais as vantagens de saber o custo variável por km rodado?
  • [07/17] – 7 fatos que talvez você não saiba sobre custo direto.
  • [08/17] – Por que normalmente os autônomos se esquecem do custo indireto?
  • [09/17] – Qual a maneira correta de calcular o Ad Valorem?
  • [10/17] – Qual o percentual correto deve ser utilizado no GRIS?
  • [11/17] – Tabela completa com todas as generalidades cobradas no mercado.
  • [12/17] – Como fazer o cálculo do pedágio usando mais de um formato?
  • [13/17] – A carga tributária que você paga atualmente está correta?
  • [14/17] – Qual margem de lucro devo usar no mercado de transportes?
  • [15/17] – Como colocar corretamente os ingredientes para a formação do preço do frete?
  • [16/17] – Qual é o ponto de equilíbrio de uma viagem?
  • [17/17] – Planilha de frete, que automatiza o processo de cálculo de fretes.

crédito das imagens: shutterstock.com

  • Pércio Guimarães Schneider

    Quando se fala em lucro existe muita desinformação, ou informação errada, transmitida por aí. No noticiário na TV falam em margens de lucro de mais de 100%, o que é impossível, Posso ter um preço de venda 150% maior que o de compra, mas lucro não. Se comprei uma caneta por R$ 1,00 e vendi por R$ 2,00, meu preço de venda é 100% maior que o de compra, mas o lucro na operação é de 50% porque metade do que recebi equivale ao gasto com “matéria prima”. No transporte, conheço muita gente que sabe quanto sobra no final do mês, mas é raríssimo encontrar alguém que saiba quando ganhou, qual operação é lucrativa e qual é deficitária.
    O maior equívoco no transporte é tratar as despesas como fixas e variáveis, porque isso leva a não dar a devida atenção ao que está envolvido. A melhor abordagem é tratar como a indústria que define os gastos em diretos e indiretos. Traçando um paralelo, matéria prima é variável pois se tenho uma encomenda maior vou precisar de mais insumos, vou gastar mais energia, vou precisar de mais mão de obra.
    Direto, é tudo aquilo que gasto diretamente com o meu “objeto”. No transporte: combustível, salário de motorista (e ajudantes, se houver), IPVA, pneus, manutenção, seguro, etc.
    Indireto, o grupo de despesas que, embora necessárias, não “param o caminhão”: telefone, administração, etc.
    Essa visão tradicional de fixo e variável, de modo geral, leva a tentar economizar (ou tentar reduzir gastos) onde não deveria, em especial com manutenção e pneus, colocando em risco a operação e, principalmente, a vida.
    E ainda vale a velha máxima de que o transportador é a classe mais unida entre os profissionais: quando um abaixo o preço do frete, os demais abaixam também. E vão todos juntos para o buraco.

    • Olá Pércio,
      Agradeço por deixar aqui a sua contribuição.

      Complementando o que você falou, existem os custos fixos e variáveis, e também existem os custos diretos e indiretos.
      A diferença é que todo custo variável é direto, mas os custos fixos podem ser diretos ou indiretos.
      Na série sobre cálculo de fretes eu falo com detalhes sobre cada um deles, mas é possível ter uma ideia prática nesta imagem – http://fretecomlucro.com/wp-content/uploads/FretePeso.jpg

      Forte abraço!

    • Dinaldo dos Santos Galindo

      Ao ler o texto enviado perlo colega Pércio Guimarães Schneider, no último paragrafo:
      “E ainda vale a velha máxima de que o transportador é a classe mais unida entre os profissionais: quando um abaixa o preço do frete, os demais abaixam também. E vão todos juntos para o buraco.”
      Me lembrei de um período em que trabalhei com empresas de transportes no modal aéreo e rodo – aéreo , principalmente nas rotas: Manaus – São Paulo , e no sentido inverso São Paulo – Manaus no período de uns dez anos atrás , e o resultado foi ???
      Cadê: á VASPEX, a TCB ? , a AEROPOSTAL ? , a BEX , e outras empresas que operavam neste segmento ?
      Que eu me lembre , além das dificuldades cambiais no Brasil naquele período, a máxima lembrada pelo colega Pércio , contribuiu para o resultado final daquele período.
      Dinaldo S. Galindo